Existe uma parte da sessão que acontece no corpo.

Há uma sensação que muitos terapeutas reconhecem, mas poucos conseguem descrever com precisão: a de que, em uma sessão online, algo está funcionando bem e, ao mesmo tempo, algo está levemente fora de lugar.

O paciente fala. Você escuta. A aliança está lá. Mas existe uma camada que parece mais fina.

Não é falta de engajamento. Não é distração. É outra coisa.

Existe uma assimetria silenciosa na teleterapia que raramente é nomeada nas formações e quase nunca nas supervisões.

O paciente geralmente relata que a sessão foi boa. Que se sentiu escutado. Que o vínculo está intacto.

O terapeuta, por dentro, sente que faltou alguma coisa.

Durante anos, terapeutas relataram essa sensação de forma anedótica. "A forma é muito diferente, mas eu não diria que é melhor ou pior. É apenas diferente, mas igualmente rico." Ou ainda: "Parece que há uma energia diferente." Frases soltas, trocadas em supervisões, em conversas de corredor, em grupos de WhatsApp de profissionais.

Uma pesquisa publicada em 2024 no Psychotherapy Research1 tentou ir além das anedotas. Com 826 terapeutas em exercício, a maioria conduzindo sessões tanto presenciais quanto por videoconferência, o estudo mediu três dimensões da relação terapêutica: a aliança de trabalho, a relação real e a presença terapêutica.

O que encontraram não era simples.

A aliança de trabalho, essa dimensão da colaboração entre terapeuta e paciente, com suas metas, tarefas e vínculo — não apresentou diferença significativa entre os formatos. Terapeutas perceberam sua aliança como essencialmente equivalente nas sessões presenciais e online.

Isso, por si só, é relevante. Porque é a aliança que mais consistentemente prediz desfechos terapêuticos. E ela parece se manter.

Mas a presença terapêutica foi uma história diferente.

Presença terapêutica não é atenção. É algo mais encarnado: a capacidade do terapeuta de trazer sua integralidade, física, emocional, cognitiva, relacional para o encontro com o paciente. De estar não apenas ouvindo, mas habitando o espaço da sessão.

Os dados mostraram que terapeutas relataram sentir-se significativamente menos presentes nas sessões por videoconferência. O efeito não era pequeno. Era o mais robusto entre todas as variáveis relacionais medidas. E não desaparecia quando os pesquisadores controlavam variáveis como experiência clínica ou orientação teórica.

Os itens que mais diferenciaram os dois formatos eram reveladores: terapeutas sentiam mais tédio nas sessões online. Maior dificuldade de concentração. Menor consciência das nuances da experiência do paciente.

Não é negligência. É estrutura.

A tela fragmenta o campo sensorial do encontro. O corpo do paciente aparece recortado, enquadrado, comprimido. Os silêncios chegam com um leve delay. O espaço não é compartilhado. A pele, a voz no ar, o peso da presença física, tudo isso desaparece.

O terapeuta precisa fazer, ativamente, o que no presencial acontece de forma quase involuntária.

Talvez o que estejamos nomeando seja a fadiga de presença: o custo cognitivo e emocional de sustentar, através de uma tela, algo que no presencial acontece de forma mais natural, quase sem esforço.

Mas se o terapeuta sente menor presença, o que o paciente efetivamente experimenta?

As pesquisas indicam que a autopercepção de presença terapêutica é, ela mesma, menos confiável do que a percepção do paciente. Estamos diante de uma zona cinzenta.

É possível que o paciente perceba esse recuo de forma difusa, sem ter linguagem para nomeá-lo. Uma leveza onde deveria haver peso. Um encontro funcional onde poderia haver encontro de fato.

É possível, também, que o paciente traga ao espaço online sua própria forma de preenchimento e que a lacuna seja menor do que o terapeuta teme.

Ainda não sabemos.

O que o estudo também encontrou foi que terapeutas mais experientes apresentaram níveis mais altos de presença terapêutica em ambos os formatos. Não apenas no presencial.

Isso sugere algo que ultrapassa o debate presencial versus online: a capacidade de estar presente pode ser cultivada. Não é inteiramente determinada pelo meio. É também uma habilidade. Uma postura. Um treino.

Terapeutas com mais anos de prática parecem ter desenvolvido algo, talvez uma maior tolerância ao desconforto da fragmentação sensorial, talvez uma capacidade de gerar presença de dentro para fora, mesmo quando o ambiente externo não coopera.

Há implicações práticas aqui que ninguém está discutindo com a frequência devida.

Se a presença terapêutica é mais difícil de sustentar online, e se ela é um antecedente da aliança de trabalho, e se a aliança prediz resultados, então existe uma cadeia de efeitos sutis que começam no corpo do terapeuta e chegam, de alguma forma, ao processo de mudança do paciente.

Essa cadeia precisa ser levada a sério.

Não para condenar a teleterapia. Ela chegou, ficou, e para muitos pacientes representa acesso que de outra forma não existiria.

Mas para que terapeutas possam trabalhar com mais consciência, e menos culpa, sobre o que a tela exige deles.

Há algo aqui que ninguém formou você para enfrentar.

A teleterapia não foi ensinada nos institutos. Chegou de súbito, foi adotada por necessidade, foi defendida como equivalente, e ficou. Mas as perguntas sobre o que ela faz com a qualidade do encontro raramente aparecem nas formações continuadas.

E os terapeutas ficaram com essa sensação, de que algo estava diferente, sem linguagem para articulá-la. Sem permissão, às vezes, para nomeá-la como perda.

Talvez a pesquisa ofereça, ao menos, o início de uma permissão.

A tecnologia pode ser uma extensão da memória clínica, organizar anotações, preservar histórico, registrar o que o tempo apaga. Pode ser uma estrutura de apoio silenciosa ao trabalho que já é feito.

Mas não substitui o que acontece quando dois corpos ocupam o mesmo espaço e o encontro tem cheiro, gravidade e silêncio de verdade.

Reconhecer isso não é romantismo. É precisão clínica.

"O terapeuta que reconhece os limites da presença online não está admitindo uma falha, está exercendo o mesmo rigor que pede a qualquer processo terapêutico honesto: o de olhar para o que é, não para o que gostaríamos que fosse."

1 Aafjes-Van Doorn, K., Békés, V., Luo, X., & Hopwood, C. J. (2024). Therapists' perception of the working alliance, real relationship and therapeutic presence in in-person therapy versus tele-therapy. Psychotherapy Research, 34(5), 574–588.

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